sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Confesso @@@


Hoje as palavras saem-me num assomo de raiva. Escrevo pensando nas de Miguel Torga do seu Livro das Horas.

E, aqui, me confesso mulher! Anjo, muito poucas vezes! Humana, muitas vezes!

Confesso as minhas virtudes e os meus defeitos. Confesso o meu ser mulher amante, dócil, arisca, menina e serpente. Confesso o meu querer viver e afirmo a minha liberdade de ser assim como sou!
Não me venham com falsos pudores, não me interessam as moralidades balofas de uma sociedade que nos agrilhoa em pensamentos, actos e emoções! Ama assim! Odeia assado!
Recuso esse viver e levanto bem alto esta minha liberdade de ser anjo ou demónio, conquistada com sangue e lágrimas, tantas vezes!

Renego os sorrisos de um não querer! Recuso a falsidade de um amo-te! Abraçarei um gosto de ti. Farei sempre amor como se fosse a última vez. E nunca, nunca pedirei perdão de gozar o prazer que busco incessante na minha luta de vida a conquistar.
Tenho os meus sonhos! Não mos tiram! Conquisto-os um a um. Já aprendi há muito tempo que nada cai do céu! Os deuses andam demasiado ocupados com as suas quezílias para olharem por nós.

Aqui diante de mim me confesso possessa dos sete pecados mortais! Já depus as minhas asas há muito tempo!!!
Tenho inveja, às vezes, da inconsciência de alguns seres humanos! É tão mais fácil viver responsabilizando alguém ou algo pelas coisas que acontecem!
Tenho raiva dos eternos inocentes do não pecar!
Tenho vaidade e salto de alegria quando atinjo o meu objectivo!
Tenho preguiça de olhar os defeitos dos outros!
Tenho em mim a gula do meu prazer a conquistar eternamente!
A avareza existe em mim sim! Sou avara das ternuras lúcidas e suaves!
E a luxúria está no prazer, às vezes com dor, com que me entrego todos os dias, aqui e ali!

Também me confesso esta minha condição humana, este meu ser Abel e Caim, o ser anjo expulso de um paraíso!
Confesso este tudo que sai dentro de mim!
Me confesso, aqui, diante de mim, ser eu, assim!


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

sorriso vadio @@@

 
Há a lua e o sol. 
Há um querer e um desejar. 
Há esta terra e esta água. Há mares sem praias.
  • Há aquela luz única que une por momentos a lua e o sol.

    Depois há aquele spleen vindo do nada. Sente-se no corpo e na alma.
    Há o prazer de cheiros inebriantes.
    Há um existir por dentro.

    «E também quando…» sou ilha a explorar.
    O meu corpo abre-se em enseadas que prometem. Nele há promontórios, há um bosque, há colinas e uma planície onde se espraiam mãos acariciantes.
    O meu corpo esquece outras tormentas no gritar silencioso do prazer.

    O mundo todo gira nessa dolência infinita de uma serenidade única.
    E parto num sorriso que será sempre vadio. Levo comigo um momento único que é meu. Instante tão vadio como o sorriso.
    Agora vou… no corpo tenho a leveza de um prazer acontecido.
    Um outro dia… um outro lugar… um outro sorriso vadio. 


domingo, 27 de dezembro de 2009

feliz natal @@@


Era uma vez… há muitos muitos dias eu escrevi um texto sobre Fernão Capelo Gaivota. Apenas porque é um filme, palavras, música de vida para mim.
Resolvi partilhar neste Natal esses meus pensamentos e acrescentar-lhes algo.
Não tem nada a ver com o Natal? Tem sim!

É a história de uma gaivota, o seu sonho de voar. As suas asas são cantadas em céus de sonho e mares que se misturam. Nesse voo solitário mas divino, também eu estou, estamos todos nós.
A história de Fernão Capelo Gaivota – o mar, a ave que voa, a música – faz sonhar. Imagens e música são um hino à vida, um hino ao sonho, sobretudo à capacidade de sonhar, mesmo que se caia! E tantas vezes caímos! Tantas vezes nos levantamos! Temos essa capacidade enorme e bela de se ser louco!

Voar, querer ir sempre mais além, não ficar parado à espera que os deuses se dignem olhar-nos, sermos nós a pedir-lhes o sangue (que certamente eles retomarão) que nos tiram sempre que vivemos. É a mensagem da gaivota, símbolo de homens inteiros capazes de partir em busca do sonho e o mais importante não é o atingir do sonho – há sempre novos horizontes para descobrir quando chegamos à primeira linha. O segredo está sim nessa busca permanente, na luta às vezes dolorosa, mesmo que nunca cheguemos à linha do horizonte. O importante é partir, é buscar, é ter fé, acreditar que a vida é sempre mais além. Acreditar!

E sempre que acreditamos, é Natal! Sempre que nos levantamos depois da luta dolorosa, é Natal! Porque ressurgimos. Porque renascemos.
Porque somos vida a acontecer!
Natal é este ser capaz de ser louco em sonhos de humanidade!

Era uma vez… o Natal que acontece sempre que sonhamos.
Feliz Natal num sorriso @@@

domingo, 13 de dezembro de 2009

A árvore é altiva na sua solidão. Os seus contornos verde-negros recortam-se num céu nunca antes visto.
Há infinitos matizes azuis.
Há cinzentos variando entre o escuro e o pálido.
Há nuvens pintadas e disformes.
O vermelho é violento.
O sol raia neste amanhecer.

Tenho raiva das palavras a dizer.
Sacudo-me violenta neste acontecer de mim.
Os meus olhos assumem o escuro profundo de uma guerra a vencer.
Perdi-me em emoções tingidas de cinzento ora pálido ora escuro.
Violentei-me em palavras vermelhas de violência inaudita da desconstrução.
As nuvens, que percorriam esta paisagem que era eu, não eram brancas…
O sol raiava em cada manhã… um sol sem luz, fogo fátuo de mim.

(…)
O sol, num céu tingido de vermelho, é belo na manhã que raia em mim. Acaricia-me o corpo e aconchego-me nele. Sorrio ao amanhecer assim.
A minha sedução é este amanhecer em ti.

Sou lenta no acordar. Abro os olhos devagar. A urgência é grande. Quase corro.
É o meu canto dos silêncios e do ser eu. Olho o enorme espelho frente a mim. Nele há horas de pés descalços, de músicas a pautar. Horas de suor, de dor e de lágrimas às vezes. Há horas de cair e de levantar. Há horas de sorrisos e gargalhadas felizes.
Desnudo-me. Hoje a minha viagem é o prazer que procuro em ti.
A água percorre o meu corpo. Tem perfume de rosas a desabrochar. Tenho em mim o cheiro de terra molhada e sedenta depois do calor dormente.
Por entre almofadas de cores variadas, o rosto de menino adormecido, ainda inocente do meu querer, é pouso de raios de sol ainda tenros. A penumbra já se foi. A lua ainda é presença neste céu… sol e lua comungam por breves e raros momentos.

Suave, aconchego-me. A minha pele apetece uma outra. E há quase raiva nesta minha ânsia de me entranhar em ti, raiva funda de te abalar nas emoções de mim…raiva de tudo o que baila no meu corpo e me agita.
O teu abrir de olhos é surpresa… o teu sorriso é menino perante o meu querer.
E… sinto-me deusa e sinto-me virgem nas tuas e minhas emoções!
Bailo ante ti... serena na provocação! Ergo-me quase “gigante” no meu sorriso que te acolhe! Olho-te provocadora e desafiante... o meu sorriso tem a ternura e o desafio da conquista desejada.
Os meus olhos acariciam os teus no desejo de uma entrega que terás de conquistar! E eu sorrio de novo... de novo te percorro até à tua alma. E tu sorris na expectativa desejada. Talvez saibamos ambos que me terás... que talvez... talvez eu me abandone em ti... ambos sabemos que o caminho a percorrer tem de ser...
As minhas mãos são suaves no tocar-te... fechas os olhos nesse sentir imenso... abres de novo na tentativa de me tocar... e não! As minhas mãos continuam suaves e persistentes te percorrendo... têm apenas a direcção do sentir que te agita...
E a minha pele... o meu corpo agita-se... os teus olhos seguem-no na evolução do sentir... ora se mostra ora se esconde, ora vibra ora se acalma... perscrutas o que nele poderá vir... mas não! Ambos sabemos que há caminho a percorrer para lá chegar... que tem de ser!
Os meus lábios entreabertos jogam num movimento de descoberta... procuras o sabor... ainda não! O sorriso que nasce neles é quase entrega mas... ainda não!
E de novo fechas os olhos... para sentir! E os meus olhos, as minhas mãos, a minha pele, os meus lábios permitem agora o teu sentir! Lentamente a minha pele... todo o meu corpo se abre para ti... mas não! Há ainda caminho a percorrer...as tuas mãos são agora calor em todo o meu ser... encontram em mim a tua sede... o teu desejo! Os teus olhos têm agora a direcção dos meus... dos meus lábios... do sentir.... lentamente também elas me percorrem... e eu renasço nelas para sentir... o teu prazer!
E agora o meu corpo vibra ao calor do teu...
Falta agora o caminho a percorrer... e os nossos olhos juntos... os nossos lábios juntos... a nossa pele em conjunto....
Agora sim... fecho os olhos... abandono-me a ti e deixo-me invadir... sinto o teu prazer... sinto o meu prazer... e há caminho a fazer... fecho os olhos com força e sorrio feliz na entrega conquistada.

É o meu amanhecer!


terça-feira, 8 de dezembro de 2009

«Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!» José Régio, Cântico Negro



Olho um horizonte imenso! Uma lua vermelha projecta-se nos meus passos. Os meus olhos têm a cor dessa lua. É sangue, é dor, é raiva em mim.

Dizem-me «vem por aqui!» E dizem-me «Falo honestamente o que penso!»
Repetem, estendendo-me a falsa segurança de um abraço «estou aqui… anda… vem por aqui!»
E eu olho… nos meus olhos há a luz vermelha desta lua! Nos meus olhos, há ironia, cansaço, incredulidade, espanto! Ergo a minha vontade como bandeira ao vento e digo não vou por aí!
Não quero as palavras ocas de um não saber sentir. Não quero regras de não saber sonhar. Recuso caminhos feitos e liberdades vazias. Digo não a essa honestidade de ferir. Não quero palavras que matam como punhais – palavras tão sanguinárias como esta lua!

Eu tenho a minha loucura no sentir. Rasgo a vida como rasguei «o ventre de minha mãe». Amo os sorrisos e as rosas. Amo o vento que me devolve o sentir. Guardo na minha carne este saber o prazer. Sorrio aos caminhos verdes da luxúria, recuso os caminhos pardos do não saber sentir.

Não me digam «Vem por aqui!» Não me digam «pelo amor de Deus!» Não me falem em boas intenções! Os deuses estão nos céus demasiado ocupados com as suas quezílias. O inferno está cheio de boas intenções! Não me falem em coragem – quem ma dará?! A minha coragem está no sorriso com que me levanto todos os dias!

Não queiram que seja isto ou aquilo! Querem-me assim?! Querem-me o contrário de assim?! Tenham paciência! Eu sou, tu és! E tenho direito a ser! E sou o meu destino, sou a minha loucura, sou eu nas minhas dores, sou eu nos meus prazeres, nas escolhas que faço em cada momento. Sou o pecado, os meus pecados! E nunca pedirei perdão de gozar esse pecado que é a minha entrega. Sou filha de deus e do diabo, escolho os meus caminhos, sigo a minha loucura.

A lua vermelha é agora a luz que me ilumina. E, suavemente, as lágrimas deslizam no meu rosto. Tenho na mão uma cesta vazia. Por trás de mim há vozes. São as vozes de um aprendemos! São vozes de um «não vou por aí»! Uma a uma, as vozes chegam-me íntimas num olhar, num sorriso e em flores que vão enchendo o meu cesto. As palavras de um cântico negro são brancas na pureza do sentir. Todas diferentes, as flores têm três anos de comunhão, de lágrimas, de dor, de alegria, de partilha de sorrisos, de aconteceres, de um crescer sempre, têm o querer agarrar a vida no devir.

No meu rosto, as lágrimas brilham de felicidade sob a luz intensa do meu desnudar ali. E as minhas palavras nascem sob esta luz vermelha. Talvez eu… talvez tu e tu… façamos uma mudança no mundo…Talvez eu… talvez tu… encontremos a chave das estrelas e, quando olharmos o céu, só precisaremos de ouvir a voz do coração. Talvez eu… talvez tu… sejamos chama que ilumina. Talvez eu… talvez tu… sejamos a diferença no mundo a construir.

Levanto o meu cesto como um facho. O meu rosto, os meus olhos, o meu corpo enfrentam o vendaval que se levanta noutros olhares. A minha voz afirma a certeza «sei que não vou por aí!»
E sou feliz!

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

entardecer @@@



Fecho os olhos com força. Enterro o corpo todo na areia quente. Espreguiço-me desejante. Tenho os olhos quentes deste pôr de sol muito vermelho na minha frente. Os acordes de um bolero longínquo envolvem-me num desejo tão único como o vermelho deste entardecer. A minha pele fervilha já não sei se do calor do sol se do desejo que se acende na minha carne.

O bolero cresce devagar. Aqui e ali os acordes anunciam a chegada de turbilhões de sons na harmonia desconcertada de uma dança de corpos em paixão.

Abro os olhos de repente. As suas mãos estão mais frescas do que a minha pele. Arqueio o corpo de prazer ao som da carícia. Ele ri-se. Rio-me nos seus olhos naquela espécie de timidez atrevida que nasce do desejo. Ele sabe, ele sente. Provoco-o na languidez do querer. Os nossos rostos tocam-se. Os meus lábios são suaves no percorrer da sua pele. Sussurro no seu ouvido, por entre os acordes ainda suaves do bolero, um apeteces-me. Olho-o. Gosto de ver nascer assim o desejo num homem. As minhas mãos percorrem a sua pele também quente de sol e desejo. O bolero entra em crescendo. Aqui e ali o meu toque é um agarrar a carne. Conquisto, lenta, o seu desejo e o meu prazer. Também ele busca em mim esse gozo único da posse.

O bolero cresce e cresce. A minha urgência é a sua urgência. Ora lento ora frenético os corpos tocam-se. Afastam-se num querer respirar. Logo se juntam no dar. Mãos, bocas, pés misturam-se na areia quente do entardecer. Agora o prazer não é lento. Agora a busca faz-se no crescendo da dança de um bolero de Ravel.

As ancas colam-se em movimentos quase frenéticos. Os corpos rolam no querer, cativos e senhores. As mãos soltam-se em desvairadas carícias. Cada vez mais forte, o bolero impõe-se em compassos de entrega ao prazer. O sol afunda-se cada vez mais no mar fervilhante de vermelho.

Abro os olhos para sentir o prazer. E os seus olhos nos meus são chama me querendo. A minha pele queima no receber. O bolero atinge os espasmos finais. Forte, como o ribombar de uma tempestade, os seus acordes entranham-se na carne. Fecho os olhos com força. Sinto o fogo que me invade. Quase grito. O som final do bolero invade tudo num atroar de tambores.

O sol é vermelho. Este silêncio súbito é vermelho. Este bolero tem a cor vermelha da paixão.

sábado, 15 de agosto de 2009

lembras? @@@



Com esta chuva e este vento é impossível deter as palavras que se atropelam na minha cabeça! Às vezes apetece-me gritar “pára meu coração, não penses! Deixa o pensar na cabeça!” Saboreio esta modorra da não urgência do fazer. E agora sim! Entrego-me ao prazer da memória da chuva a lavar-me a alma no corpo, no cabelo e na cara molhados! Entrego-me a este prazer físico total de a sentir no corpo assim... enrosco-me em mim e sorrio! Sorrio na memória do meu desafio infantil ao vento e às nuvens que parecem tocar-me tão carregadas que estão! E sou eu ali porque estou ali, porque quero estar ali!
E apetece-me estar confiante, acolher-me no seu seio e gritar “Ó céu! Ó chuva! Ó vento! Levando-me passai!” Esta é a chuva, este é o vento e esta sou eu!

As minhas mãos são pequenas, sabes?! Mas às vezes tenho a sensação de agarrar o mundo todo... e elas crescem em feitiço!

E a chuva bate agora forte e a catadupa de imagens minhas e tuas quase me sufocam!
E acendo um cigarro – já não fumava e agora, de vez em quando, o cigarro é apetecível – olho a chuva semicerrando os olhos. Agora não a vejo, apenas a sinto!
De novo sentada tenho na cabeça e nos meus sentidos em alerta aquele “era uma vez...” e perco-me na memória de vozes cadenciadas num ritmo milenar do contar a vida!

De novo me levanto. Hoje existo neste vento que arrasta a chuva! “Sei que posso nadar contigo... confio em ti os meus medos... sei que me trarás de volta à mansidão da praia... sinto-me aqui porto de abrigo seguro... és menino confiante no mar que te embala e que sou eu...! E depois serei eu buscante de porto seguro em ti... porque também eu sei que voltarei e aí sim... abandonar-me-ei então... sem amarras nem defesas... e serei eu também... rendida...

E, vento, em nós não haverá nunca nem antes nem depois. Apenas existiremos enquanto existirmos! Nesta ânsia infinita de ser que nos aproxima, nesta busca de ser tudo de todas as maneiras, revemo-nos e gostamos. E a nossa prisão só existirá enquanto for libertação! Só somos sendo e nada mais, enquanto a construção se faz, enquanto não se esgotar o tu e o eu! E aí talvez sejamos nós numa história de encantar, numa história de “Era uma vez... num reino muito distante... há muitos muitos anos...”, num tempo, num lugar, aí seremos nós!

Assim quero ser em ti. Ainda não desnudei o meu rosto do sorriso feiticeiro e olhar de encantar. Terás tu de o desnudar, terás tu de descobrir o feitiço, se fores capaz...! Terás tu de me fazer desejar o prazer que te quero dar...

num sorriso per te @@@